sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

Excomungado, padre casa homossexuais e cria religião que permite até duvidar de Deus


 

Roberto Francisco Daniel, mais conhecido como Padre Beto, entrou para o seminário aos 27 anos. Ele já era formado em Direito e em História, mas decidiu ser padre. Atuou na Igreja Católica durante 15 anos, até 2013, quando deu uma entrevista para um site espírita e criticou a moral da Igreja. Padre Beto defendeu homossexuais. As declarações não foram bem-vistas e, naquele mesmo ano, ele foi excomungado, após um tribunal eclesiástico.

Padre Beto era da arquidiocese de Bauru, cidade do interior de São Paulo, e pensou que sua missão religiosa havia acabado com a excomunhão. Quando foi expulso da Igreja Católica, o padre tinha uma série de casamentos marcados e começou a ligar para os noivos desmarcando as cerimônias. Ao fazer isso, alguns casais preferiram desmarcar com a igreja e pedir para Padre Beto realizar a união de forma independente. Com o tempo, mais casais começaram a procurá-lo para casamentos fora de igrejas. “Comecei a atender esses casais e vi que eu tinha uma missão, havia uma lacuna. Eles não queriam um pastor, queriam outro discurso. Então, chegaram os excluídos: os divorciados e o primeiro casamento homo afetivo”, relembra.

Casamento purpurina?

Em 2014, Padre Beto foi procurado pelo primeiro casal de gays. Os noivos eram do interior de paulista e o religioso lembra que essa cerimônia fez com que ele mudasse as percepções que tinha sobre a comunidade LGBTQIA+. “Eu fui pronto para um 'casamento purpurina'. Uma gaiola das loucas. Era essa a minha visão. Quando cheguei lá, encontrei um ambiente familiar: avós, sobrinhos e crianças. A única coisa de diferente é que eram dois rapazes. Levei uma rasteira muita grande da vida e fui aprendendo muito”, comenta.

Antes de ser expulso da Igreja Católica, Padre Beto não tinha um contato próximo com os LGBTQIA+. Após a excomunhão, ele foi abraçado pela comunidade e começou a aprender mais sobre o universo. Entretanto, foi a experiência como padre que o fez começar a defender a diversidade. Entre os deveres que tinha como eclesiástico, ele ouvia as confissões e o que mais chegava na igreja eram pessoas se lamentando sobre questões de luxuria ou relacionamentos, segundo ele.

“Comecei a me defrontar com rapazes e moças que viviam em um namoro santo, mas que eram homossexuais. Comecei a ver a contradição e a orientá-los. A falar que eles estavam iludindo as moças e criando um inferno para a vida deles. Também atendi casados que eram homossexuais e viviam uma vida dupla. E me lembro de um senhor de 60 anos que chorou na minha frente. Tudo isso fez com que eu amadurecesse e visse como essa questão deve ser bem tratada para que as pessoas sejam felizes”, explica.

Duvidar de Deus 

No começo, ele realizava apenas casamentos, mas o público começou a pedir por cultos. Padre Beto atendeu aos pedidos, mas não tinha a intenção de criar uma nova religião. “Pensando criticamente, o Brasil está cheio de igrejas e olha como o país está. A gente é um país cristão, mas, ao mesmo tempo, não é um país cristão. Por ser o país que mais mata a população LGBTQIA+ no mundo, já mostra que não é um país cristão. Mas eu vi a possibilidade de criar uma denominação que não fosse mais uma igreja, que fosse uma proposta diferente”, recorda.

Foi fundada, então, a Humanidade Livre. Na religião idealizada por Padre Beto, só existe um dogma de fé: “Existe um ser superior que quer que todos tenham vida e vida em abundância. Seja essa segunda parte da frase a mais importante. Se você não acredita em Deus, seja bem-vindo também”. Não há regras morais, cada um deve seguir a própria vida como deseja, o importante é que ame.

Oficialmente fundada em 2015, a Humanidade Livre conta, atualmente, com cinco padres que atuam nas cidades de Bauru (SP), Vicentina, São Paulo (SP) e Braga -- esta última em Portugal. Eles ainda não têm nenhuma madre, mas Padre Beto torce para que surja uma mulher querendo fazer parte da religião e comandar missas. Ele não sabe ao certo quantos fiéis seguem a religião, mas contabiliza cerca de 200 pessoas assistindo a cada uma das duas missas que realiza semanalmente em Bauru.

Como toda religião, a Humanidade Livre tem algumas regras para seus líderes. Os padres ganham salário e são proibidos de cobrar dízimo. Padre Beto trabalha como professor universitário para se sustentar, por exemplo. A única cerimônia que Padre Beto cobra para realizar são os casamentos, que custam R$ 800 -- mais o custo de transporte, se precisar sair de Bauru. O fundador da religião não registrou quantos casamentos LGBTQIA+ realizou, mas estima que já tenham passado dos 40.

Com informações do site: O Grande News