segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

“Estamos assustadas com a repercussão”: noivas que tiveram registro de casamento negado têm vida profissional afetada


 
Ludmila e Cindy (Foto: Arquivo Pessoal)
As noivas Ludmila Chaves e Cindy Andrade foram pegas de surpresa com a repercussão do caso onde a empresa “Eu e você filmes”, que realiza filmagens de casamento e eventos em Teresina, declarou não realizar o registro de cerimônia de casamentos homoafetivos. O caso rapidamente viralizou após a blogueira Rainha Matos comentar o ocorrido em suas redes sociais.

Nas imagens da conversa entre o casal e a empresa através do WhatsApp, Cindy Andrade tenta realizar um orçamento do seu casamento, quando o responsável pelo perfil do aplicativo de mensagens da “Eu e você filmes” conta que a equipe não realiza casamentos homoafetivos.


Em conversa com a reportagem do OitoMeia, uma das noivas declarou estar assustada com a repercussão do acontecido e que seu trabalho foi afetado com a situação.

“ESTAMOS ASSUSTADAS, MAS FELIZES QUE ESTAMOS RECEBENDO UMA CORRENTE DE CARINHO E AMOR. MAS, EU E A LUDMILA ESTAMOS SENDO AFETADAS PROFISSIONALMENTE COM A REPERCUSSÃO,” DESABAFOU CINDY, QUE TRABALHA COMO ASSISTENTE SOCIAL.

Uma das pessoas que se solidarizou com as noivas foi a advogada popular e tia de Cindy, Claudia Modesto. Ela contou ao OitoMeia que desde a publicação dos stories da Rainha Matos “o telefone delas não para”, mas que estará dando todo o apoio jurídico necessário a sobrinha.

“MEU APOIO VAI ALÉM DE UMA INSTRUÇÃO JURÍDICA OU APOIO PELO MEU GRUPO FRENTE POPULAR DE MULHERES QUE AJUDA VÁRIAS MULHERES NO NOSSO ESTADO. TRABALHEI NO RAMO DE EVENTOS E FOTOGRAFIA POR MUITOS ANOS E ME SURPREENDI COM A ATITUDE DA EMPRESA. HOMOFOBIA, TRANSFOBIA, RACISMO É CRIME! PARA ENTRAR EM UM RAMO DESSES TEM QUE SER PROFISSIONAL! E O MEU TRABALHO COMO DEFENSORA POPULAR DO PIAUÍ E MILITANTE É APOIAR E DAR TODO SUPORTE, DESDE INFORMAÇÕES LEGAIS, ORIENTAÇÕES ONDE ELA PODE BUSCAR SEUS DIREITOS, ALÉM DO APOIO MORAL SUPER NECESSÁRIO NESSA SITUAÇÃO” CONTOU MODESTO.

PSICÓLOGA ALERTA RISCOS

A psicóloga especialista em atendimento a comunidade LGBTQUIA+, Joyce Amorim, comentou o caso à reportagem do OitoMeia e explicou que há uma linha muito tênue entre a exposição saudável nas redes sociais e a exposição tóxica.
Ela contou que é de extrema importância que estejamos sempre conscientes de que do outro lado da telinha existe uma pessoa, tão humana quanto nós observadores e apontou os lados positivos e negativos do ocorrido.

“O USO DAS REDES SOCIAIS PARA DENUNCIAR TAIS AÇÕES É ALGO POSITIVO, POIS TRAZER ESSAS SITUAÇÕES A PÚBLICO MOBILIZA UM GRANDE NÚMERO DE PESSOAS QUE TAMBÉM REPUDIAM A DISCRIMINAÇÃO, FUNCIONANDO COMO UMA FORMA DE MOSTRAR QUE ESSE PRECONCEITO NÃO SERÁ ACEITO”

“MAS HÁ TAMBÉM UM LADO NEGATIVO: A REPERCUSSÃO DESSES CASOS EXPÕE AS PESSOAS QUE SOFRERAM A DISCRIMINAÇÃO A UM ESCRUTÍNIO DE QUALQUER OUTRA PESSOA QUE FAZ PARTE DAS REDES SOCIAIS E POR MUITAS VEZES ESTAS PESSOAS TÊM A SUA PRIVACIDADE INVADIDA, ISSO PODE ACARRETAR EM SOFRIMENTO MENTAL POR TRAZER REPETIDAMENTE À TONA UMA VIVÊNCIA ANGUSTIANTE, AFETANDO ESTAS PESSOAS EM DIVERSAS ÁREAS DA SUA VIDA – INCLUSIVE DEIXANDO-AS SUSCETÍVEIS A SOFRER NOVAS DISCRIMINAÇÕES,” EXPLICOU AMORIM.

As noivas ainda não decidiram se irão entrar em processo contra o estabelecimento. No Instagram, o casal agradeceu o apoio recebido.

“GOSTARIA DE AGRADECER TODAS AS MENSAGENS DE APOIO, E TAMBÉM AS EMPRESAS QUE ESTÃO NOS AJUDANDO NA LUTA POR ESSA CAUSA, AS EMPRESAS DE FOTOGRAFIA E CERIMONIAL QUE ESTÃO NOS DANDO SUPORTE, OBRIGADA PELA FORÇA, NÓS NÃO VAMOS NOS CALAR,” DISSE A NOIVA LUDMILA EM SEU INSTAGRAM.


O QUE DIZ A EMPRESA

A equipe de reportagem do OitoMeia entrou em contato com a equipe da “Eu e Você Filmes”, que informou, através de ligação, que dará um posicionamento sobre o ocorrido somente após finalizar uma conversa com seus advogados.

“Nós vamos nos posicionar, assim que terminar de conversar com nosso jurídico,” disse representante da empresa.

HOMOFOBIA É CRIME

Em 13 de junho de 2019, o Supremo Tribunal Federal – STF decidiu pela criminalização da homofobia e da transfobia, com a aplicação da Lei do Racismo (7.716/1989). O julgamento, que teve o Instituto Brasileiro de Direito de Família – IBDFAM como amicus curiae, determinou que discriminações e ofensas às pessoas LGBTI podem ser enquadradas no artigo 20 da referida norma, com punição de um a três anos de prisão. O crime é inafiançável e imprescritível


Com informações do site: Oito meia