quarta-feira, 10 de março de 2021

'Minha família quer que eu me case aos 14 anos com noivo rico’: os casamentos infantis na pandemia


 
Foto: Reprodução

Há apenas alguns meses, a mãe e os irmãos dela a pressionaram para aceitar um pretendente, se casar e, assim, ajudar a aliviar as dificuldades financeiras da família durante a pandemia de covid-19.

Abeba quer ser médica, mas em sua cidade natal, Gondar, na Etiópia, o futuro de sua educação é incerto.

Rabi, de 16 anos, ainda frequenta o ensino médio em Gusau, na Nigéria. Mas quatro de suas amigas da escola se casaram durante a pandemia, e a mãe dela acredita que ela deveria fazer o mesmo.

"Duas de nossas vizinhas vão se casar esta semana, In sha Allah (se Deus quiser). Nunca pensei que isso fosse me tocar tão cedo", diz Rabi.

E as perspectivas para essas adolescentes estão longe de ser incomuns.

De acordo com um novo relatório do Fundo Internacional de Emergência das Nações Unidas para a Infância (Unicef), já antes da pandemia esperava-se que em 10 anos 100 milhões de menores seriam obrigadas a se casar.

O órgão estima que, por causa da covid-19, esse número crescerá 10%.

O fechamento de escolas em todo o mundo, a recessão econômica e a interrupção dos serviços de apoio às famílias e crianças durante os confinamentos aumentaram a probabilidade de que, até 2030, outros 10 milhões de meninas se tornem esposas antes da idade adulta legal, diz o relatório.

"Esses números revelam que o mundo está se tornando um lugar mais difícil para as meninas", disse Nankali Maksud, conselheira sênior de Prevenção de Práticas Nocivas da Unicef.

Assunto de família
"As famílias deveriam mandar suas filhas para a escola, em vez de arranjar casamento para elas", diz Abeba.

A jovem etíope escapou de um casamento arranjado porque conseguiu que seu pai a apoiasse.

"Minha mãe e meus irmãos continuaram me pressionando para casar. Eles pararam quando receberam aconselhamento. As autoridades fizeram eles mudarem de ideia."

Para Rabi (nome fictício, pois ela não quer ser identificada ou fotografada), a ameaça continua presente.

Ela mora em uma área rural em Damba, um assentamento Hausa-Fulani no norte da Nigéria, onde mulheres jovens se casam assim que têm um bom pretendente.



"Para mim, tudo começou durante o confinamento, quando meus irmãos mais novos começaram a brincar de soletrar e eu decidi me juntar a eles", diz a jovem de 16 anos.

A mãe dela ficou brava porque Rabi demonstrou no jogo que não havia aprendido o suficiente na escola.

"Ela me disse: 'Você já perdeu muito tempo indo para a escola! Olha, seus irmãos mais novos têm que te ensinar!'".

A mãe continuou: "A esta altura, todas as meninas do seu ano escolar estão casadas. Vou pedir a Shafi'u (pretendente de Rabi) que mande os pais dele pedirem oficialmente sua mão em casamento".

As amigas Habiba, Mansura, Asmau e Raliya se casaram no ano passado para amenizar as dificuldades financeiras de suas famílias.

Savita acha que tem 16 ou 17 anos. Ela não sabe exatamente sua própria idade. Embora seus documentos de identidade indiquem que ela tem 14 anos, ela diz que o dado não está correto.

Ela mora em Uttar Pradesh, no norte da Índia, com seus pais, quatro irmãs e dois irmãos.

Savita diz que nunca foi à escola, por isso não sabe ler nem escrever.

Durante o confinamento, sua família recebeu um ganho extra, mas ainda a pressionou para que ela se casasse. Ela havia visto sua irmã se casar ainda criança e relutou em seguir seus passos.

Quando as autoridades locais conseguiram impedir o casamento há algumas semanas, Savita ficou aliviada.

Ofereceram a ela a inclusão em um programa de transferência de renda — caso ela adiasse o casamento até os 18 anos, receberia apoio financeiro até lá.



Nankali Maksud, da Unicef, diz que há três elementos-chave que precisam ser abordados para reverter a tendência das meninas serem forçadas a se casar por causa da pandemia.

"Primeiro, você precisa levar as meninas de volta à escola com a maior segurança possível", diz Maksud, ou dar a elas a oportunidade de desenvolver habilidades, como aprender um ofício ou profissão.

"O impacto econômico da covid-19 nas famílias pobres também deve ser abordado, de modo que a carga financeira não seja aliviada com a venda ou casamento das meninas."

A conselheira da Unicef também destaca que a gravidez na adolescência é um importante fator para o casamento das meninas.

"Portanto, é vital que os serviços de saúde sexual e reprodutiva sejam retomados, para que as meninas possam acessá-los e ter a informação e assistência que precisam para tomar as decisões certas".

"Eu ajudei a salvar minha irmã do casamento"

Minara se tornou uma ativista contra o casamento infantil em sua comunidade depois de entrar em um clube local para educação de adolescentes em Kalmakanda, no norte de Bangladesh.

O que a adolescente de Bangladesh de 18 anos não sabia na época era que seu treinamento a ajudaria a salvar sua própria irmã mais nova, Rita.

"A pandemia tem sido difícil para minha família", diz Minara, que mora com os pais e os dois irmãos em uma casa com telhado de palha.

O pai dela perdeu o emprego durante o confinamento e estava desesperado por dinheiro.

Minara descobriu que um vizinho se ofereceu para se casar com a irmã dela, dizendo que queria ajudar a aliviar o problema financeiro da família.

Este mesmo homem assediava Rita antes da pandemia chegar, diz ela.

Com a ajuda das colegas do clube, Minara ligou para uma linha de apoio e conseguiu impedir o casamento, embora não tenha certeza por quanto tempo.

Se esta pandemia continuar, os pais podem se sentir pressionados a casar suas filhas antes de elas completarem 18 anos.

Na Etiópia, Abeba espera que suas amigas continuem indo à escola e evitem se casar antes de se formar.

Mekdes, de 14 anos, sonha em ser engenheira.

"Estando em casa (confinada), ouvi meus pais falarem sobre se casar com um garoto que eu nem conhecia", disse ela à BBC.

"Eu disse a eles que não queria me casar e que queria estudar, mas eles não me ouviram."

"Esperei até a nossa escola reabrir e contei tudo ao diretor da escola", conta a adolescente.

"Ela informou as autoridades locais e eles aconselharam meus pais a não fazerem isso."

Por enquanto, os pais prometeram não casá-la até que ela complete 18 anos.

"O serviço de aconselhamento está ajudando muito em nossa comunidade. Agora, existe até um sistema para a polícia processar os pais se eles insistirem em nos casar."

Com informações do site:  bbc