segunda-feira, 22 de março de 2021

Panela explodiu no rosto e Angela venceu medo de se olhar no espelho


 
Foto: Reprodução
Era para ser um dia de trabalho como outro qualquer. Porém, foi nas mãos da agente de merenda escolar Angela Regina da Silva que uma panela de pressão em plena ebulição explodiu próximo ao seu rosto. Na hora, o calor imediatamente se misturou a uma dor sem fim. Ela não enxergava mais nada, apenas sentia agonia. E como sentia. Ao vivenciar em sua memória cada segundo daquele episódio trágico, pôde sobreviver para contá-lo.

Encaminhada para a Santa Casa, passou por cuidados diários, depressão, medo de olhar para as pessoas. Como um milagre, entretanto, sua recuperação não deixou marcas ou sequer uma cicatriz na face. Foi sua segunda chance para, finalmente, enfrentar o próprio reflexo no espelho.

"Todas as vezes que saía de casa usava chapéu, óculos escuros e me cobria com um lenço. Não somente devido ao sol, que eu era obrigada a me proteger inclusive com bastante protetor solar, mas porque não queria passar pelos olhares e julgamentos das pessoas", afirma a ex-merendeira e hoje professora da rede municipal de ensino público.



"Tive muita dificuldade de voltar a enxergar. A explosão pegou uma parte lateral do meu rosto e pescoço e nisso também queimou bastante meu olho direito. Os médicos desacreditavam que algum dia iria recuperar a visão. Mas recuperei. Apesar de todo aquele sofrimento repentino devido ao acidente, cada dia que passava minha pele cicatrizava mais e quando voltei de fato a ver, me arrisquei em viver minha vida normalmente", conta.

Antes disso, porém, Angela revela ter passado por um quadro de depressão. "Não conseguia preparar as refeições para os meus filhos que ainda eram pequenos, fora a dificuldade e o medo em lidar com panelas de tudo que é tipo. Tinha temor até do próprio vapor que saía de alguma delas que estava no fogão cozinhando. Isso me incomodava porque me fazia relembrar o acidente e também porque eu sentia 'viva' minha queimadura".

Triste e impotente, demorou alguns meses para passar a fase de estresse pós-traumático. Angela teve a sorte de não levar nenhuma marca física como "presente" do que um dia viveu – o que é muito raro para pacientes vítimas de queimaduras de 2º grau em regiões mais sensíveis do corpo. Apesar da imensurável dor, conforme relata, teve a pele totalmente restaurada.

"Foi assim que consegui vislumbrar a possibilidade de voltar com minha vida normalmente. Certo dia, me olhei no espelho e quis saber onde é que eu havia abandonado a minha verdadeira identidade. Diante de mim estava uma pessoa que eu não reconhecia. Depois de muitos questionamentos, cheguei à conclusão de aquela não era a pessoa que eu queria ser, a vida que eu queria levar e o futuro que eu gostaria de deixar aos meus filhos. Clareei minha mente para, então, começar a deixar o trauma sofrido no passado", admite.

Ainda como merendeira, Angela decidiu voltar aos livros. Estudou bastante, entrou na faculdade, se formou, prestou provas e conseguiu passar em outro concurso assim como já tinha feito antes.

Hoje já não trabalha mais na merenda escolar. "Voltei a estudar ão só com o objetivo de aprender mais, mas também conseguir um trabalho que pudesse proporcionar uma condição de vida melhor para a minha família. Eu precisava me sentir feliz, motivada e curada, não só por fora mas, também por dentro também, no coração e na alma", diz.


"A Face no Espelho" – Todas essas histórias estão contidas em um livro escrito por Angela, que nem imaginaria que algum dia teria uma obra publicada. "Fiquei me perguntando se tudo aquilo que passei era para eu enterrar no passado e deixar pra lá, como se não existisse um propósito em tudo aquilo. Me lembrei daquele ditado: 'todo ser humano deveria plantar uma árvore, ter filhos e escrever um livro'. E de todas elas só me faltava o livro!", brinca. 

Com informações do site: campograndenews