terça-feira, 16 de março de 2021

“Vou te matar devagar”, diz ex-marido que, preso, ainda ameaça mulher


 
Foto: Reprodução
Sábado (13/3) de manhã, o meu telefone apita: “Eu não quero morrer”, escreve a mulher do outro lado da tela. Há pouco mais de um mês, sozinha, ela reuniu informações sobre o paradeiro do ex-namorado Uillan Cássio da Silva – que expôs vídeos íntimos, a chantageou e agrediu – e entregou a localização dele à polícia. O acusado acabou preso, em Recife (PE), e ela acreditou que estaria protegida, no interior da Paraíba.

Mesmo depois da prisão, porém, a vítima continua recebendo ameaças em seus perfis nas redes sociais. “Você vai pagar com a vida” e “Vou te matar devagar” foram algumas das frases enviadas. A mulher havia recebido pelo menos três textos como esses do ex-companheiro no fim de semana e pediu ajuda na delegacia da cidade onde vive, mas foi ignorada. “Me mandaram procurar a juíza”, conta. O advogado que cuida do caso buscou o fórum local, que também não se manifestou de imediato.

Desesperada, ela enviou pedido de ajuda para a repórter que a entrevistou sobre o caso, um mês antes, de Brasília. Como garantir a segurança de uma mulher que está desamparada, sem dinheiro e sem informação sobre como proceder para não morrer, a milhares de quilômetros de distância?

“Você não tem um lugar seguro para ir? A casa de alguém? Um hotel?”, questionei. Se fosse simples, obviamente ela já teria feito isso. A vítima temia expor familiares à violência. Perguntei se uma doação em dinheiro resolveria, por hora, a situação, mas quem estava do outro lado da tela era uma mulher paralisada pelo pânico, à espera do pior. “Eu não quero morrer”, ela repetia.

Começou então a busca por uma rede de apoio capaz de tirá-la de casa e garantir sua segurança. Entramos em contato com pelo menos 20 mulheres entre jornalistas, ativistas dos direitos femininos, advogadas e representantes do poder público em busca de soluções.

Os centros de acolhimento às mulheres vítimas de violências – formados por abrigos, com psicólogas, advogadas e outras profissionais – não funcionam aos fins de semana. Essa foi a resposta que recebemos. Se um homem resolver te matar, torça para que ela faça isso de segunda a sexta-feira e, assim, quem sabe, te reste alguma chance de escapar.

Busca por ajuda
A busca por ajuda durou mais de 24 horas e mobilizou mulheres em três unidades da Federação, que iniciaram uma corrente entre seus contatos, até chegar às autoridades. No fim da tarde de domingo (14), policiais entraram em contato com a vítima. Ainda questionaram se ela estava certa de que o ex tinha mesmo a intenção de matá-la e se era ele mesmo quem escrevia as mensagens de dentro da cadeia.

Ela teve de recontar toda a sua trajetória em busca de proteção e, finalmente, foi levada para um local seguro. Nesta segunda (15), ela recebeu uma mensagem do agressor, que atualmente é casado com outra mulher:


A violência nas palavras do abusador comprovam: sem uma rede de mulheres que se formou rapidamente talvez na segunda-feira fosse tarde demais. Foram necessárias as vozes de mais de 20 mulheres para tentar fazer com que ouvissem o apelo de uma só.


Onde estavam os representantes do poder público que poderiam ter resguardado a integridade daquela pessoa? Os homens ainda são maioria nos cargos de chefia e ainda ganham mais do que as mulheres, num cenário geral, no Brasil. Ainda assim, fomos nós, mulheres, que nos mobilizamos para fazer esse trabalho pelo qual a recompensa é ver menos uma de nós morta.

São homens os responsáveis pelos feminicídios, pela violência psicológica, causadores da dor e do medo de que possamos deixar de existir de uma hora para outra, gritando sozinhas por ajuda, enquanto quem deveria se importar dorme um sono tranquilo no fim de semana.

Falência do Estado
É a morte e a falência completa do Estado, o colapso de uma sociedade em que a vida da mulher não tem valor. Nós estamos cansadas de muita coisa: do machismo, da sobrecarga mental e física, dos estupros, dos abortos clandestinos, de estarmos desprotegidas dentro de casa e nos becos escuros, de criar filhos sozinhas e de cuidar de todos ao redor enquanto acumulamos vulnerabilidades. Implorar pela vida não deveria ser mais uma de nossas tarefas.

Na tarde desta segunda-feira, a Secretaria Executiva de Ressocialização (Seres) do Recife informou que: “O detento encontra-se recolhido no Presídio Juiz Antonio Luiz Lins de Barros (Pjallb), no Complexo do Curado, na Região Metropolitana do Recife. A gerência da unidade prisional apreendeu o celular do detento, que foi encaminhado ao Conselho de Disciplina da unidade”.

De acordo com Maíra Araújo, titular da Delegacia da Mulher de Campina Grande, responsável pelo caso, a unidade irá encaminhar ofício para a Vara de Execuções Penais de Pernambuco com o objetivo de que sejam tomadas as devidas providências.

“Ele está dentro de uma unidade prisional, e não deveria ter acesso a celular. Além disso, existe medida protetiva. speramos que seja instaurado procedimento administrativo no sentido de garantir que esse homem não tenha mais acesso a nenhum tipo de comunicação com a vítima”, afirmou a delegada ao site Paraíba Feminina, de Taty Valéria, que fez parte da rede de apoio.

Fica a resposta para quem questionou se aquela mulher tinha mesmo certeza de que corria perigo – ela ainda corre. A dúvida diante da palavra da vítima pode custar uma vida. Esse peso nós não estamos dispostas a carregar. Estamos radicalmente decididas a sobreviver.

Com informações do site: Times Brasília