sexta-feira, 9 de julho de 2021

"Fui internada à força pelo meu marido e torturada em uma clínica psiquiátrica"


 


“Conheci meu ex-marido quando tinha apenas 16 anos e logo me encantei pelo sorriso dele. Costumava passar em frente à sua casa na volta do trabalho e ele sempre me cantava. Na noite de ano novo de 1995 ficamos juntos. Ali começava o meu pesadelo. Eu, moça ingênua e inocente, ainda não sabia disso. 

Em 1997 fiquei grávida. Ele disse que havia gostado da notícia. Só que, dias depois, as coisas mudaram drasticamente. ‘Érica, não gosto de você, nunca gostei e nunca vou gostar’, ele falou. Fiquei assustada e me afastei, não tivemos mais contato. Quando completei cinco meses de gestação, ele voltou a me procurar se dizendo arrependido, afirmando que queria se casar comigo e assumir o bebê. Eu era tão jovem e sem perspectiva que acabei aceitando. Mas ele começou a me enrolar e, de uma hora para outra, já não queria mais se casar, dizia que apenas ‘juntar’ e morar junto já estava bom. Sempre falei que não era mulher de me ‘juntar’ com ninguém. Por fim, em 4 de outubro de 1997 nos casamos no civil. Após a cerimônia ele foi embora em um carro e eu em outro. Fui para a casa dos meus pais e passei o dia inteiro lá, ele só foi me buscar à noite após eu insistir muito. 

Pouco tempo depois, já morando juntos, comecei a sentir as dores do parto e fui para a maternidade. Minha filha nasceu aos oito meses de gestação. Nesse dia ele me deixou sozinha no hospital e passou a noite bebendo com os amigos em um bar. Segundo ele, estava comemorando. Quando tive alta me bateu um pânico e comecei a chorar com medo da minha filha ficar ali internada sozinha, já que ela precisava ganhar peso. Ele colocou a mão no meu rosto e me mandou engolir o choro.

Um dia, quando minha filha completou seis meses, fui à casa dos meus pais, duas ruas abaixo, e voltei à noite. Ele ficou transtornado, jogou o jantar no chão, quebrou pratos e travessas de vidro. Naquela noite ele me deu o primeiro tapa no rosto. Perplexa e sem entender por que estava apanhando, gritei por socorro e fui correndo para a casa da minha cunhada, que ficava em cima da minha. Ao invés de me acolher, ela disse que não iria se meter. A única coisa que consegui fazer foi pegar minha filha para sair de casa, mas ele disse que iria embora. Fiquei na porta chorando com ela nos braços. Horas depois ele voltou dizendo que estava arrependido. Mas eu não queria conversa, estava profundamente magoada. Meus pais falaram para eu voltar a morar com eles. Só que eu não achava justo ter saído de casa e voltar com uma filha embaixo no braço para eles ajudarem a criar. Decidi que ficaria na minha casa.

Dias após a primeira agressão física meu marido voltou a demonstrar o mostro que era. Mais uma vez chegou nervoso da rua, gritando, me xingando, dizendo que eu abria as pernas para todo mundo. Para não apanhar de novo, peguei minha filha do berço para sair de casa. Mas ele trancou a porta e jogou a chave para o lado de fora da casa. Não satisfeito, pôs uma faca debaixo de seu travesseiro e trancou a porta do nosso quarto. Ficamos eu, ele e minha filha lá dentro. Foi a noite mais tensa da minha vida! Eu mal respirava com medo do que ele poderia fazer. Sentia medo e pavor.

A família dele dizia que eu tinha que tentar salvar o casamento. Eu era bobinha e fui fazendo tudo o que eles queriam, embora as coisas só piorassem. Até que engravidei novamente. A gestação foi conturbada do início ao fim. Com cinco meses, meu cunhado tentou me agarrar dentro da minha casa em um dia que eu estava sozinha. Consegui me safar dele, mas fui parar no hospital de tanto nervoso que passei.
O médico que me atendeu ficou tão indignado que quis chamar a polícia, mas não deixei. Queria evitar escândalo e também não queria estragar a porcaria de casamento que eu tinha. Minha segunda filha nasceu aos seis meses de gestação e precisou ficar 42 dias internada para ganhar peso. Eu ia ao hospital duas vezes por dia para amamentá-la - ia de ônibus, pois meu marido se recusava a me levar de carro.

O tempo foi passando, minhas filhas foram crescendo e voltei a trabalhar fora. Ele tinha ciúmes do meu trabalho, da minha família, das amigas, de tudo. Nessa altura, nem amizades eu podia ter mais. Ele fazia questão de me levar e me buscar todos os dia. Na sua cabeça doente, tudo era motivo para eu estar o traindo. Quando engravidei pela terceira vez, de gêmeos, engordei muito. Aí ele dizia que eu podia ir sozinha para o trabalho ou visitar meus pais, pois gorda como estava nenhum macho iria me olhar na rua. 

No meio da gestação perdi um dos bebês e sofri demais. Fiquei com a cabeça estranha, tinha medo de tudo, achava que ia perder o outro bebê também. Me bateu uma crise de pânico. Meu marido fazia tortura psicológica e me agredia muito verbalmente. O que ele mais dizia para me humilhar era que eu era burra e lerda. Quando meu terceiro filho tinha apenas quatro meses e eu tinha acabado de voltar da licença maternidade, ele foi até a empresa e fez um escândalo alegando que não eu podia mais trabalhar. Foi tão grande que chamaram a polícia na porta do meu trabalho. Acabei sendo demitida, ou seja, tudo que ele queria. Dias depois, ele fez questão de ir comigo receber minhas verbas rescisórias. Com o dinheiro compramos umas coisas para as crianças e ele pegou o restante sem a minha autorização para comprar um carro usado para a família dele usufruir. 

Pouco tempo após eu ser demitida, ele decidiu alugar nossa casa em Diadema e determinou que nos mudaríamos para Indaiatuba. Ordenou que eu tirasse as nossas coisas da casa o quanto antes. Revoltada, minha mãe falou que eu não precisava ir com ele se não quisesse. Mais uma vez não a ouvi, eu era muito submissa. Lá, longe dos meus pais e sem ajuda, comecei ter crises e mais crises de choro. Desenvolvi também uma mania de limpeza, chegava a limpar a casa quatro vezes por dia. Não sabia o que era aquela compulsão.

Em meados de 2002 seguia triste e sem me adaptar ao interior, me sentindo cada vez mais sozinha e isolada. Um médico que me consultei disse que eu estava com uma crise severa de depressão, me receitou um antidepressivo e me mandou fazer terapia. Cheguei em casa e, ingenuamente, deixei a receita em cima da TV. Quando meu marido chegou do trabalho perguntou o que era aquilo e expliquei, ele me disse que não passava de frescura minha. E me fez pensar que realmente era. Na minha cabeça não tinha motivo para ter depressão: eu era casada, tinha boa casa, três filhos lindos e saudáveis. Por que estaria deprimida? 

Ele parecia feliz ao me ver dopada, andava com uma caixa de remédio atrás de mim. Na época, meu marido trabalhava em uma farmácia e vivia me enchendo de medicamentos, vários calmantes. Disse que meu problema de saúde era por culpa da minha mãe, ele a odiava. E me proibiu de vez de falar com meus pais. Continuei falando com eles pelo telefone da casa de uma vizinha, que um dia contou para ele. Meu marido ficou louco, deu uma porrada na porta do guarda-roupas e disse que era para ser em mim. Quebrou um monte de coisas dentro de casa e saiu, passou a tarde toda fora. Quando voltou tive a pior notícia da minha vida: ele tinha em mãos um laudo do meu psiquiatra dizendo que eu não tinha condições de viver em sociedade. Essa frase nunca mais me saiu da cabeça, ecoa até hoje na minha mente. Ele falou para o médico que eu estava agredindo as pessoas e quebrando todas as coisas em casa. O médico não se deu ao trabalho de me consultar ou me perguntar, simplesmente acreditou nele e mandou me internar. Pensei em fugir, mas minhas pernas pareciam tão fracas que não tinham forças. Ele disse que se não fosse com ele chamaria a ambulância e eu iria amarrada numa camisa de força. Ali entendi que não tinha nada que eu pudesse fazer.

Naquela mesma tarde, dia 20 de janeiro de 2003, saímos de Indaiatuba rumo à cidade de Amparo, também interior de São Paulo. Meu filhos ficaram com os primos, filhos da minha cunhada que, tempos depois, veio com uma conversa de querer pegar a guarda das minhas crianças, porque achava que eu ia morrer. Eu estava com 22 anos. Meus filhos eram todos pequenos e precisavam muito da presença materna. O caçula tinha 1 ano, a do meio 3 e a mais velha estava com 4 anos.

Chorei a viagem inteira. Fui levada para uma clínica numa fazenda e digo que é o mesmo que conhecer o inferno na terra. Me senti sendo descartada como lixo. Assim que cheguei, pegaram as minhas roupas para desinfetar, tomei banho em um banheiro enorme, um lugar sujo e escuro. Depois, vesti uma roupa da própria instituição. Nessa noite não consegui dormir, só tentava entender por que tinham feito isso comigo. Eu não estava doida, só estava enfrentando uma depressão e estava me tratando. Acredito que meu marido tenha feito isso para se livrar de mim. Quando falei em me separar e voltar para a casa dos meus pais ele preparou essa 'surpresinha'.

Eu estava totalmente lúcida e os médicos sabiam disso. Por isso acredito que o meu marido pagou para eu ficar ali. Eles diziam que eu era esquizofrênica, mesmo sem nenhum exame comprovando. A ordem era me encher de medicamentos e me dopar para que eu não conseguisse sair dali. Até que um dia me dei conta que a única forma de sair daquele inferno seria fazendo greve de fome e foi exatamente o que eu fiz. Passei dias sem comer. A nutricionista de lá, preocupada, me trazia vitaminas de frutas, mas eu não tomava. Passaram a me dopar mais e me botar no soro. 

O lugar era horrível e me dava calafrios. Via pacientes andando de quatro igual animal, outros babando e se batendo no chão. Alguns chegavam perto de mim e gritavam. Entrei em pânico. Tentei uma fuga durante a noite, mas dei de cara com um enfermeiro que já veio para me bater. Bati nele também. Essa foi a primeira de muitas noites que fiquei amarrada. Fui segurada por vários enfermeiros homens e amarrada na cama com os braços abertos e as pernas juntas. Eles me aplicavam muitas injeções nas pernas que, segundo eles, não deixariam marcas. 

Quando estávamos dopados, eles nos jogavam no banho frio para que a gente acordasse. Era muita tortura. E nos deixavam horas embaixo do chuveiro frio, o que mais pra frente me ocasionou uma forte pneumonia. Meu marido até ia me visitar de vez em quando, mas ficava pouco tempo e quando ia embora dizia que eu estava cada dia mais louca. 

Em uma das consultas, uma médica me disse que sabia que eu não deveria estar lá, mas só meu marido poderia autorizar minha alta. Meus dias foram ficando cada vez piores. Certa vez, caí no banheiro e a enfermeira-chefe me pegou pelos cabelos para eu levantar, me jogou com tudo contra a pia do banheiro. Levei oito pontos no queixo, carrego essa cicatriz até hoje. Para meu marido disseram que eu havia caído da cama. Eu contava as agressões que sofria, mas ele achava que eu estava cada vez mais fora de mim.

Minha mãe depois me contou que, super preocupada, conseguiu através da minha vizinha descobrir onde eu estava, já que meu marido não falava. Chegando lá, foi proibida de me ver. Disseram que eu estava ‘contida’ e minha mãe, na sua simplicidade, não entendeu e achou que eu estava na UTI. Na verdade, eles não queriam que ela me visse amarrada igual a um bicho. Ela voltou para casa e ligou para minha tia de Recife, que entendeu o que estava acontecendo. 'Tire sua filha agora desse lugar, porque vão matá-la’. Nessa mesma noite minha mãe ligou para o cretino, ameaçou levar a polícia lá. No dia seguinte ela conseguiu entrar. Os enfermeiros ainda ficaram inventando conversas sem nexo para ela desistir. Mas uma mãe nunca desiste de um filho, não é mesmo?

Quando minha mãe chegou à enfermaria ela mal me reconheceu. Eu estava muito inchada, cheia de escaras pelo corpo de tanto ficar amarrada na cama na mesma posição, estava com muita febre, com as mãos geladas e a testa queimando. Apavorada, minha mãe ligou para o cretino para que tomasse providência ou iria iria processá-lo. Ele não teve outra escolha, minha mãe não ia deixá-lo em paz.

No dia 1º de março de 2003, após 40 dias no inferno, finalmente minha mãe me tirou de lá e fui transferida para um hospital para tratar a pneumonia. Ali a minha sorte começou a mudar. O médico que me atendeu dizia que não sabia como eu estava viva, já que meu caso era realmente muito grave. Após 20 dias de internação, enfim, tive alta. Os protestos do cretino para que eu não voltasse para casa espantaram até o médico. Ele gritava: ‘Vocês não estão vendo que ela está louca? Como assim ela vai para casa?’. Ele não me queria na nossa casa de jeito nenhum. Parecia querer me afastar dos meus filhos.

Saí do hospital ainda muito debilitada, sentindo fortes dores nas costas e pesando 112 quilos. Estava inchada de tanta medicação, me sentindo acabada, com a autoestima lá no pé, fraca e derrotada. Quando cheguei em casa louca para ver meus filhos, ele não me ajudou a subir as escadas. Fui subindo sentada, devagarzinho, degrau por degrau. Ele me deixou isolada em um quarto da casa e seguia agressivo.

Reencontrar meus filhos foi o melhor presente depois do pesadelo que vivi.
Minha primogênita chorou muito quando me viu, o caçula me abraçou e não queria mais sair de perto de mim. Aos poucos eles se acalmaram, mas não entendiam muito bem o que estava acontecendo, eram muito pequenos ainda.


Após quase dois meses andando de cadeira de rodas e usando fraldas, finalmente, comecei a andar segurando nas coisas e fui a São Paulo fazer um tratamento de acupuntura para ver se melhorava os nervos das pernas. Nesse dia, minha mãe pediu para que eu ficasse uns dias com ela. A partir dali fiquei sabendo todos os absurdos que ele havia feito, ela me alertou sobre tudo. Tomei um nojo tão grande desse cara, que até hoje não consigo pronunciar o nome dele.

A partir daquele dia existia uma Erica antes e uma após a internação. A Erica após não era nem de longe a mulher submissa de antes. No dia 16 de junho de 2003 saí de casa com a roupa do corpo e com meus três filhos embaixo do braço. Fui sem olhar pra trás e nunca mais pensei em voltar. Fui de vez para a casa da minha mãe. Dois anos depois consegui me divorciar.

Passei a me cuidar, me valorizar, gostar de mim. Fiz muita terapia. Em seis meses perdi 56 quilos e voltei a me ver como mulher. Dizer que foi fácil seria uma mentira. Nem de longe foi. Esquecer? Colocar uma pedra em cima? Juro que já tentei, mas é uma cicatriz que tenho e levo comigo, que não me deixa esquecer. Tudo que passei me fez mais forte, mas também me deixou a pessoa mais sem paciência do mundo, super imediatista, quero tudo pra ontem, além de, claro, ser muito desconfiada com tudo e com todos. Já namorei, mas nunca mais me casei e nem quero. Fiquei com traumas para o resto da vida, essa é a verdade.

Criei meus filhos sozinha, voltei a estudar. Hoje sou formada em duas graduações e já estou fazendo a terceira. Trabalho e sou muito respeitada na empresa onde atuo como administradora. Meus filhos já estão todos criados - eles têm 24, 22 e 21 anos, respectivamente. As duas meninas já são casadas e me deram lindos netinhos que eu amo de paixão. O caçula ainda mora comigo. Meu ex-marido morreu no ano passado de um ataque cardíaco fulminante. Para mim foi até um alívio, já que ele nunca parou de me perturbar, nunca aceitou a nossa separação. Nunca o perdoei por todas as maldades que me fez. Passei sete anos casada com um homem que me destratou e me humilhou das piores maneiras possíveis.

Aprendi a me impor em qualquer situação, não deixo homem nenhum, independente de quem seja ou qual hierarquia tenha, tentar me diminuir. Pelo contrário, coloco muito marmanjo em seu lugar. Aprendi a duras penas. Se pudesse dizer que tenho um arrependimento seria não ter ouvido meus pais antes. Hoje, aos 41 anos, só faço o que quero e quando quero. Me orgulho da mulher que me tornei."


Com informações do site: portalsbn