sexta-feira, 23 de julho de 2021

Mia Linz conta que virou atriz de vídeos para tentar salvar casamento


 
(Foto: Reprodução)
Retrospectivamente, a ex-empresária Ariane Moreno reconhece que foi um gesto extremado. Para tentar salvar seu casamento, Ariane criou um nome artístico, ingressou na indústria adulta e, em dois anos, participou de mais de 100 vídeos. Mia Linz, como é conhecida agora, consagrou-se “rainha”.

Na autobiografia “Uma Mulher Livre”, que tem pré-venda disponível em seu perfil no Instagram, Mia conta que o “fetiche” de seu marido era assisti-la com outros homens. A descoberta se deu quando os dois já estavam juntos havia oito anos e, em busca de estímulos para recuperar o desejo perdido, resolveram viver um “relacionamento aberto”. Na ocasião, tornaram-se frequentadores de clubes de swing.

Não foi suficiente. No estertor, ela precisou apelar para uma terapia, digamos, intensiva.

“Virei atriz por causa do meu ex-marido. Não é algo que eu teria escolhido. A princípio, não foi por dinheiro, foi para socorrer um relacionamento em crise”, afirma ela, que tem 28 anos e um filho de 11.

Meteórica, a carreira de Mia foi do final de 2017 ao de 2019, período que corresponde à sobrevida do casamento. “A gente prolongou algo que já não dava mais para recuperar. Estava tudo errado. A liberdade aparente que ele me dava escondia um controle feroz. Eu só podia ficar com quem ele autorizasse, e era monitorada nas redes sociais o tempo todo”, diz.

Vulnerável e determinada

A exposição de Mia Linz em cenas com homens, mulheres e em grupo, nas mais elaboradas posições, funcionou para o ex-marido, que é músico e toca sanfona, mas “não tinha mais sentido” para ela.

Porém, ao mesmo tempo em que o responsabiliza por seu ingresso no universo, Mia faz questão de dizer que não foi levada pela submissão a ele. Admite que “tinha vontade de viver aquilo”. “Eu estava em um período de experimentação, queria explorar todas as possibilidades. Quando essa fase passou, eu me separei.”

A reportagem tentou falar com o ex-marido da atriz, mas, segundo ela, ele preferiu não se manifestar.

Com 120 páginas, a autobiografia apresenta Mia Linz como uma mulher ao mesmo tempo vulnerável e determinada, libertária e poderosa. De acordo com o release, “o livro mostra a Mia humana, com suas histórias de dor e de sucesso”. “Não me arrependo do que fiz, mas acho importante ter sempre em mente o quanto me custou”, diz ela.

Feminista saudável

Embora cite no livro com orgulho a “liberdade conquistada” e se considere feminista, ela não concorda com a corrente que critica a suposta “objetificação do corpo da mulher na indústria”. “Existe um feminismo saudável e um extremista. Eu não imponho nada a ninguém, e quero ajam da mesma forma comigo. Eu decido o que faço com o meu corpo, as escolhas são minhas.”

Filha mais velha de um casal de surdos-mudos, Mia afirma que é muito ligada à família. Antes de se expor nos vídeos, ela se reuniu com o pai, a mãe e o irmão mais velho para conversar. “Eles reagiram com tranquilidade, nunca tive problema com isso”, conta. “Acho que o apoio da família é muito importante no enfrentamento do preconceito.”
 
Segundo ela, a família do ex-marido também encarou com sobriedade seu projeto.

Algo irreversível

Quando Ariane Moreno criou Mia Linz, ela sabia que “era algo irreversível”. “Eu tinha consciência de que a imagem da atriz grudaria em mim para o resto da vida, mas na época não parava para pensar no que eu faria ‘depois’.”

O “depois” chegou. Definindo-se como uma mulher “pragmática”, Mia afirma que “jamais fugiria do passado”. Ela faz o contrário. Potencializa o que viveu. Atualmente, explora o nome artístico na captação de clientes em plataformas como o OnlyFans, um serviço por assinatura que disponibiliza o conteúdo, e aplicativos como o Snapchat, sua principal fonte de renda, em que ela posta imagens de seu dia a dia. Na manhã em que TAB esteve em sua casa para entrevistá-la, Mia já havia produzido imagens de seu despertar. Por esses dias, ela aguarda a instalação de câmeras que vão captar seu cotidiano e disponibilizá-lo no site “voyeur house”.

“Pra que fazer filme, se você pode ganhar muito mais, sem precisar ter relação com ninguém e nem mesmo sair da casa? A tecnologia oferece muitas possibilidades.”

Loira ou morena

Ela calcula que 80% de sua clientela no Snapchat é formada por homens árabes. Atualmente, são por volta de 200 assinantes que pagam US$ 30 por mês para assisti-la.

No auge da quarentena imposta pela covid-19, o número de “fans” chegou a 400. A queda na procura não é atribuída por Mia ao fato de ela ter engordado mais de 20 kg desde o começo da pandemia. Com 1,60m de altura, foi de 50kg para 72kg. Está em 68kg.

“Não dá para saber o que se passa na cabeça do fã. O fato é que, se ele gosta de uma mulher, vai querer aquela, e não outra: esteja ela loira, morena, mais magra ou menos”, acredita.

A clientela árabe foi amealhada no tempo em que Mia gravava vídeos para produtoras do Leste Europeu, onde funciona um polo da indústria adulta. “Fiz uma parceria com um produtor do Oriente Médio, que me divulgou para os assinantes dele. Em 2020, produzi e dirigi vídeos especificamente para aquele mercado”, conta.

Seu acesso às produtoras da Hungria e República Tcheca se deu pela rede social. “Tudo funciona pelo Twitter, que não tem censura. Você posta cenas de filmes seus, aquilo cai no circuito e muita gente vê, aí as produtoras te chamam.”

Sem preservativo

Nas produções fora do Brasil, segundo ela, “ninguém usa preservativo”. “Os atores são submetidos o tempo todo a exames de sangue. Se alguém aparece com sífilis, por exemplo, toda a indústria entra em quarentena. Em uma das minhas idas a Budapeste, houve um caso assim. Parou tudo.” Enquanto participou das produções como atriz, Mia usava a PreP (profilaxia pré-exposição ao vírus HIV), um coquetel de medicamentos preventivos.

Com uma linha de atuação reconhecidamente “hardcore” (intenso, levado a extremos), ela diz que não passou por nada parecido na vida real. “Fui assediada na infância por um amigo do meu pai, mas consegui me desvencilhar e o denunciei.” Nas cenas dos vídeos, em que tudo de fato acontece, ela diz que não se sente violentada: “Meu papel ali é realizar a fantasia de muita gente. Homens e mulheres”, sintetiza.

Embora aponte a necessidade de ser “técnica” e dominar posicionamento de câmera, incidência da luz e melhores ângulos, Linz afirma que é preciso “gostar”. “Não dá para achar que tudo pode ser feito mecanicamente.” Contudo, ela afirma que seu envolvimento com os atores não se dava necessariamente por atração, e sim porque precisava deles como veículo de suas experimentações.

Ruth e Raquel

Apesar da extensa videografia, Mia Linz calcula ter interagido com no máximo 30 homens (“contracenei muitas vezes com os mesmos atores”), em sua maioria.

O ator Loupan, 47 anos, 3.500 filmes no currículo, explica: “A gente combina tudo antes, para não exceder o limite da pessoa. Assim, já entra ganhando”. Ele exalta o profissionalismo de Mia. “Nos bastidores, ela é tranquila, doce, divertida. Em cena, se transforma em uma máquina. Sabe aquela novela das gêmeas (“Mulheres de Areia”), que tem a Ruth e a Raquel? A Mia é tipo aquilo.”

Para Paulo Wild, 47, que dirigiu mais de 2 mil cenas dela, Mia Linz é “um sonho de mulher”. “Além de bonita e atraente, ela tem um senso de humor incrível. Quando eu a conheci, logo de saída percebi que era uma estrela.” Wild dirigiu Mia em “App”, um dos vídeos mais vistos dela. Cansada da rotina entediante, ela busca alguém para animá-la em um aplicativo de relacionamentos.

Agora que diz ter experimentado tudo o que queria em termos de fantasia, Mia Linz afirma que, na vida real, só vai pra cama quando se interessa pelo homem “como pessoa”. “Não consigo mais fazer o ato casual.” Para definir sua postura, ela cita o termo “demissexual”. É usado para categorizar pessoas que só fazem o ato se houver “uma conexão emocional”.

Consciente da imagem que criou para si, de símbolo viralizado, Linz volta e meia frustra expectativas. “Quem espera encontrar a atriz na cama, cai do cavalo”, avisa. Por outro lado, se ela capricha nas posições, corre o risco de deixar o parceiro “nervoso”. 

Seu último pretendente foi um engenheiro norte-americano do Oregon, que tinha a idade dela. Os dois se conheceram pelo aplicativo Tinder, durante um “mochilão” que Mia fez pelos EUA, quando se separou do sanfoneiro. Ela mostra a foto: aloirado, barbudo, ele exibe o braço “bombado” em uma camiseta preta justa. “Nos Estados Unidos, eles tratam a gente como estrela de cinema mesmo”, acredita.

Ainda assim, os dois já não estão juntos. Brigaram porque ela queria que o engenheiro viesse visitá-la, quando as fronteiras norte-americanas estavam fechadas para brasileiros, e o engenheiro “enrolou”. “Por que eu posso ir, e ele não pode vir? Fiquei estressada! A gente não se fala há dois meses.”

Só um trabalho

Ao final da conversa, pergunto se não é sofrido exibir-se nos dias em que a autoestima não está tão fortalecida. Onde encontrar ânimo? Ela simplifica: “É um trabalho como outro qualquer. Você acha que um executivo se levanta da cama todos os dias animado, doido para ir para o escritório?”

A diferença do cotidiano do executivo que trabalha em regime de home-office (de casa) é que Mia eventualmente aparece diante da câmera. Morando em um apartamento de cerca de 60 metros quadrados em Taboão da Serra, zona sul de São Paulo, ela explica que a presença do filho em casa não a atrapalha na produção do “camming”: “Ele tem a vida dele, desce para brincar com os amigos do prédio. Nunca me perguntou nada. Ainda não está nessa fase.”

Terapeuta em formação

Ainda de acordo com a estratégia de otimizar ao máximo a produção, Mia Linz está cursando psicologia. Seu plano é tornar-se medica. Pretende usar todo o cabedal adquirido na pesquisa de campo para atender clientes. “Os vídeos foi uma grande terapia para mim. Vou dizer aqui a verdade: eu era muito insegura, falando. Antes, eu não ficava despida com essa facilidade”, diz ela, enquanto posa para as fotos.

Com informações do site: UOL