sexta-feira, 9 de julho de 2021

Pai perde esposa e um dos gêmeos depois do parto: "É muito sofrido"


 
Foto: Reprodução
Rafael de Paula Vitorini, 30 anos, e Camila Xavier Tavares Vitorini, 26, estavam juntos há 10 anos. Os planos para a gravidez vinham sendo adiados em busca de estabilidade financeira e moradia. Quando tudo deu certo, eles abandonaram os contraceptivos e conseguiram engravidar em poucas semanas.


Como ambos vinham de famílias de gêmeos, não houve tanta surpresa quando souberam que Alicia e Rafael estavam a caminho. Mas foi uma alegria imensa para o eletricista e para a técnica de enfermagem, que trabalhava todos os dias cuidando de bebês prematuros, na UTI do Hospital de Clínicas de Curitiba.

Camila não tinha nenhum problema de saúde, nem pressão alta. Fez o pré-natal e seguiu com uma gestação sem problemas, com todas as ecografias normais, segundo o marido. Uma semana antes do parto, ela começou a sentir azia, gases e dificuldade para se alimentar, além de apresentar palidez. No outro dia, já no hospital, descobriram que Alicia estava sem batimentos cardíacos. Camila chegava na 33ª semana de gestação quando a cesárea de emergência foi realizada.

A menina não sobreviveu. “Meu coração não me deixou ver a Alicia. Queria lembrar dela com o rostinho da última eco”, lamenta o pai. O irmão gêmeo de Alicia, Rafael, foi direto para UTI, “com apenas 10% de chance de vida”, de acordo com Rafael.

Camila saiu bem do parto, ficou consciente e pode ir ver o filho na UTI. “Logo depois, a médica explicou sobre a alteração no fígado dela e diagnosticou síndrome de Hellp. Começaram o tratamento, que incluiu bomba infusora, medicação 24h e vários exames. Eles constataram uma obstrução no intestino causada pelo aumento do útero. Precisariam abrir para limpar e seria necessário sedá-la e intubá-la por 24h”, explica o marido.


Nem tudo saiu como esperado e Camila teve complicações no pulmão, fígado e intestino, o que fez com que ela tivesse de permanecer na UTI por 14 dias. A mãe teve duas paradas cardíacas e não resistiu. “Foi cuidar da Alicia”, diz Rafael.

Paternidade solo

Volltar para casa apenas com o filho prematuro não foi nada fácil. Rafinha, como é chamado, ficou 11 dias na UTI, três deles intubado. “Quando fui pegá-lo na alta [do hospital], todo mundo me olhou estranho por eu ser o pai e não a mãe. Eu tremia", lembra. 

Rafael teve a ajuda dos sogros, na casa da família de Camila nos primeiros dias. No último domingo (4), pai e filho voltaram para casa, ao lado da avó paterna. “Está tudo arrumado, como a Camila deixou. Parece que ela já foi preparando tudo. Me ensinava onde as coisas estavam e dizia que cada um precisaria assumir os cuidados de um dos gêmeos, já prevendo o trabalho duplo. É muito sofrido, mas eu disse que estaria com ela e ficamos juntos até o final. O Rafinha não vai ficar desamparado”, explica.

O pai assume que foi difícil nos primeiros dias. “Constrangedor até, tive muito medo, mas via as enfermeiras, perguntava e aprendi tudo. Até o banho, que foi o mais difícil, por ele ser prematuro e eu ter medo de machucar. Mas agora já estou mais treinado”, admite. “Hoje eu troco, dou mamadeira, banho, levanto de noite, levo no pediatra e está sendo bem tranquilo", declara.


Síndrome de Hellp

A Síndrome de Hellp é uma rara complicação da pré-eclampsia – ligada à hipertensão arterial da gestante e a uma reação do sistema imunológico ao material genético do pai presente no embrião. Ela atinge apenas 10% das mulheres que sofrem com este problema durante a gravidez.
 

Entre as complicações da Hellp estão a redução no número de plaquetas e das funções hepáticas, além da hemólise, quebra de hemácias dentro dos vasos sanguíneos, elevando o risco de hemorragia.

A principal dificuldade no diagnóstico está na falta de sintomas e tratamento. Ao ser descoberta – por exames laboratoriais - na gestação, a indicação é o parto prematuro, pelo risco à mãe.

Com informações do site: PORTAL SBN