terça-feira, 3 de agosto de 2021

'Achei meu filho 30 anos após ele ser levado de mim na maternidade'


 
Foto: Reprodução
“Nasci na aldeia indígena Itapissuma, no Pernambuco. Quando eu era criança, minha mãe saiu de casa, para fugir do comportamento violento do meu pai. Ela levou apenas minha irmã mais velha, deixando meus dois irmãos do meio e eu, a caçula, para trás. Se ela voltasse meu pai a mataria sem hesitar. Ele ficou com muita raiva dela. Dias depois, fomos morar em Olinda.

A vida com meu pai e meus irmãos se baseava em medo constante. Seu comportamento violento era ainda mais potencializado pelo alcoolismo. Nós nunca tivemos uma casa decente, vivíamos pelas ruas de Olinda.  Às vezes meu pai me dava para uma família cuidar, mas logo ele se arrependia e me pegava de volta. Sem contar que nas casas que ele me deixava os maridos costumavam me molestar e me assediar.

Foi quando tive a ideia de arrumar um marido. Assim eu teria casa, comida e família, que era meu grande sonho. Eu só tinha 11 anos de idade e já pensava em me casar.

Quando completei 12 anos conheci o pai do meu filho. Ele tinha 20 e era irmão do namorado de uma amiga minha. Começamos a nos relacionar e passei a frequentar a casa onde ele morava com a mãe e dois irmãos mais novos. Namoramos de setembro de 1986 a janeiro de 1987. Acredito que eu tenha engravidado em outubro.

Um dia, comecei a sentir muitos enjôos e não conseguia me alimentar direito. A mãe do meu namorado cuidava de mim, mas ela não queria que seu filho ficasse comigo. Ele começou a me evitar e chegou ao ponto de aparecer com uma nova namorada na minha frente. Me senti um lixo. Eu amava aquele homem. Ali, vi meu sonho de ter uma casa e uma família indo pelo ralo.

Uma vizinha disse que eu precisava trabalhar e me levou na casa de sua ex-patroa para trabalhar como doméstica. Alguns dias depois, passei mal e minha patroa chamou sua irmã, que era médica, para ver o que estava acontecendo comigo. Ao me examinar ela constatou a gravidez. Eu já estava com quatro meses de gestação, mas mal tinha barriga. Tinha um corpo bastante infantil ainda. Todos na casa se assustaram. Deu um ‘rebu’ danado. Chamaram a senhora que me levou lá e ela pediu que me desse uma chance porque o pai do bebê não quis saber de mim, nem de assumir o filho, e eu não tinha uma família disposta a me ajudar. A médica que me examinou me convidou para ir morar em São Paulo com ela. Como o pai do meu filho não me procurou e eu já não tinha mais nada a perder mesmo, aceitei. Achei que pudesse ter uma vida melhor longe dali.

Antes de ir para a capital paulista, todo fim de tarde, eu caminhava na praia de Boa Viagem, em Recife. Com os pés na areia e mão na barriga, eu chorava muito por ele não ter vindo me buscar. Meu pai ficou sabendo que eu estava grávida, mas isso era irrelevante para ele.

No dia 10 de março de 1987 cheguei em São Paulo meio assustada, mas confiante que iria ficar tudo bem. Essa médica, minha patroa, me colocou para dormir embaixo da mesa da cozinha. Me sentia muito humilhada e também sentia muito frio. Lá eu cozinhava, lavava e limpava todo o apartamento.

Comecei a fazer o pré-natal no hospital Amparo Maternal. Um dia, minha patroa disse que seria preciso doar meu filho. Não acreditei no que escutava. Me assustei e não aceitei. Ela insistiu, dizendo que eu não podia cuidar de um bebê porque eu era analfabeta, não sabia ler, nem escrever. No fundo, sempre tive a esperança de que alguém iria chegar, me resgatar e que tudo ficaria bem. Mas não foi o que aconteceu.

Chegou o dia de eu parir meu bebê. Era 15 de junho de 1987 e me lembro de correr de um lado para o outro no corredor do hospital de tanta dor. Vieram quatro médicos para me segurar. Tive meu filho de parto normal. Era um menino. O amamentei ao nascer com o coração cheio de esperança. Meu mundo desabou quando a médica com quem eu trabalhava disse que ele iria embora naquele exato momento. Me joguei em cima da cama e comecei a chorar como se alguém tivesse arrancado um pedaço de mim. E arrancaram mesmo. Ela trouxe uma mulher que pegou meu filho dos meus braços e o levou. Eu não queria dar meu filho. O arrancaram covardemente.

Saí da maternidade correndo e avistei a mulher entrando no carro com o meu bebê no colo.  Eu gritava de dor. Parecia dilacerar a minha alma. É algo inexplicável.

Eu jurava que não suportaria tanta dor. Tive que tomar remédio para secar o meu leite. Meus seios doíam, tive muita febre. Então, a doutora disse que eu precisaria registrar meu filho. Eu sempre gostei do nome Bruno e não pensei duas vezes: seria o nome do meu menino. Ela me assegurou que o casal que ficaria com ele com certeza mudariam seu nome.

Um mês depois pedi à minha patroa para me colocar em contato com os pais adotivos do meu filho, eu queria instruí-los a dar muito amor ao Bruno. Ela atendeu ao meu pedido. O casal ficou na recepção do prédio onde morávamos me esperando. Quando os vi, minha voz não saía e eu só chorava. Fiquei nervosa demais. Chorei sem parar, de soluçar. Eu não aceitava a ideia de perder meu bebê e eles ficaram sem entender o que estava acontecendo. Eles eram estrangeiros e não entendiam nossa língua. E eu, muito nova e ingênua, fiquei paralisada sem conseguir gritar ou fazer um escândalo para ficar com meu filho. Hoje sei que levaram meu menino para a cidade de Chantilly, na França.

Fiquei mal, entrei em depressão, tentei até o suicídio. Tomei vários remédios e minha patroa correu comigo para o hospital, onde fizeram uma lavagem estomacal.

Em agosto de 1988, finalmente, consegui me libertar e sair daquela casa. Fui morar com uma vizinha no mesmo prédio. Estava furiosa, até mesmo porque a vizinha me dizia que o que ela tinha feito comigo era pura maldade. Era um crime. Depois, fui trabalhar em outro lugar e nunca mais tive contato com essa médica.

Os anos se passaram e eu sempre com esse vazio dentro de mim. Pensava todas as noites e quando acordava onde estaria o meu bebê. Sempre que eu contava essa história as pessoas diziam para eu esquecer, que eu jamais encontraria meu menino. Porém, continuei com a ideia fixa de ter uma família, que sempre foi o meu sonho.

Minha vida não foi nada fácil. Ao completar 20 anos fui morar com um rapaz por quem estava apaixonada. Nessa época, eu trabalhava como ascensorista e ele em uma padaria. Engravidei e tive outro menino em 1993. Pensei que ele iria preencher o meu vazio. Mas que nada. Uma mãe nunca esquece um filho que perdeu. Passei cinco anos morando com o pai do meu segundo filho, até que resolvemos nos separar. Depois de um tempo, me casei novamente e tive outro filho em 1996. Fiquei cinco anos casada e me separei do segundo marido quando ele passou a maltratar o meu filho que não era dele.

Felizmente, consegui terminar os meus estudos quando meus filhos ainda eram pequenos. Os anos se passaram e, mesmo assim, as lembranças do meu filho arrancado de mim continuavam presentes mais do que nunca. Minha dor e angústia pareciam só aumentar. Não sabia nem por onde procurar meu filho. Eu não tinha o nome do casal que o adotou. Só sabia que eles moravam fora do Brasil.

Em abril de 2017, meu primogênito, Bruno, que nessa época já morava na Suíça, conheceu uma brasileira no Facebook e contou que nasceu no Brasil e foi adotado ainda bebê. Ele disse que gostaria muito de conhecer sua mãe biológica. Essa moça, Ana, ofereceu ajuda. Ela trabalhava na defensoria pública de Brasília e conseguiu me encontrar. Ana contou a ele que sua mãe era uma menina e, na época, não podia criá-lo. Parece que a mãe adotiva nunca escondeu do Bruno quem eu era. Com meu nome em mãos, Ana começou a pesquisar na internet e em apenas cinco dias conseguiu me encontrar. 

"Estava indo comemorar meu aniversário quando meu celular tocou. Meu coração disparou quando Ana perguntou se eu estava procurando meu filho"

Com todos os meus dados em mãos, Bruno pediu que Ana só me comunicasse no dia do meu aniversário - 12 de junho. Ele queria me fazer uma surpresa, me dar essa notícia de presente. Depois, Ana me contou que mal conseguia dormir esperando o dia do meu aniversário.

Me lembro como se fosse hoje: eu estava indo almoçar para comemorar meu aniversário quando meu celular tocou. Meu coração disparou quando Ana me perguntou se eu estava procurando meu filho. Minha vida inteira que parecia não fazer o menor sentido, naquele momento começou a fazer. Ela contou que ele estava me procurando. Nossa, eu gritava sem acreditar. Fiquei em choque, paralisada. Trinta anos depois! Quando ela me enviou a foto do meu filho eu mal sabia raciocinar naquele momento. Ele era a minha cara! Vibrei com essa constatação. Trocamos telefone, mas ele não falava português.

No dia 29 de julho de 2017 Bruno veio ao Brasil para me encontrar pessoalmente. Fui esperá-lo no hotel onde ele se hospedou. Passei dias sem dormir só pensando no nosso grande encontro, mal continha minha ansiedade. Ao ver meu filho minhas pernas tremiam demais, me faltou até o chão. Acredito que esse foi o dia mais feliz da minha vida. Receber o forte abraço do meu filho 30 anos depois me revigorou, me trouxe a vida de volta.

Ficamos alguns minutos ali abraçados, ‘grudadinhos’ e muito emocionados. Sentir o cheiro do filho é bom demais. Parecia um encontro de almas, de outras vidas. O rosto dele é idêntico ao meu. Ele é o filho que mais se parece comigo, tanto que nem precisamos fazer exame de DNA. A Ana ajudou muito na nossa aproximação. Ela veio de Brasília para nos conhecer e foi quem registrou o nosso primeiro encontro. Bruno também conheceu seus dois irmãos, meus filhos mais novos.

Ele preferiu, neste primeiro momento, ficar hospedado em um hotel na avenida Paulista. Todos os dias eu ia pra lá passar o dia inteirinho com ele. Depois de uma semana fomos a Brasília conhecer a família da Ana. Depois, retornamos a São Paulo e ele já ficou hospedado na minha casa. Imagina, receber meu filho na minha casa! Como eu sonhei com isso! Ter meus três meninos reunidos embaixo do meu teto, todos em volta da mesa comendo a minha comida. Parecia mesmo um sonho.

Ele me contou que seus pais adotivos o criaram muito bem e nunca esconderam quem eu era. Eles tinham o meu nome anotado e, quando ele cresceu, deram a ele. Os pais adotivos também lhe registraram na França com outro nome. Mas, para mim, sempre será o meu Bruno. Dias depois, ele retornou para Lausanne, na Suíça, onde trabalha com marketing.

Em junho de 2018 fui à Suíça passar as férias com ele. Foi indescritível. Fomos até Paris encontrar com a sua família adotiva. Nosso encontro também foi emocionante: Bruno com suas duas mães. Depois ele me levou para conhecer Mônaco, Itália e o sul da França. 

Falo com o meu filho todos os dias. Adoraria que ele morasse no Brasil, bem pertinho de mim. Mas, por outro lado, entendo que sua vida é lá. Inclusive, já era para a gente ter se encontrado novamente, mas por conta da pandemia não consegui viajar. 

Bruno se casou com uma russa e teve um filho lindo que se chama Gabriel. Meu neto já tem dois anos. Meu filho caçula também já tem uma menina, Lívia, de um ano. Já sou avó! Olha que maravilha! Bruno hoje está com 33 anos e trilhou um caminho brilhante. É um homem lindo, trabalhador, honesto, íntegro, do bem e muito inteligente. Ele fala seis idiomas, para total orgulho da mamãe aqui. Não vejo a hora de abraçá-lo novamente e conhecer Gabriel. Vou passar três meses lá curtindo meus meninos e também fazendo curso de doces, uma paixão na minha vida. 

Hoje, aos 47 anos, sou uma mulher realizada, segura e confiante. Ganho meu dinheiro cozinhando - faço bolos, doces e salgados para festas e eventos. Também tenho me dedicado a escrever minha autobiografia. Se chamará ‘Telefonema de Brasília’."

PORTAL  SBN |  COM INFORMAÇÕES DA REVISTA MARIE CLAIRE