quarta-feira, 4 de agosto de 2021

O choque do estudante de Medicina que encontrou o corpo do amigo na aula de anatomia


 
(Foto: Arquivo pessoal/BBC)
O estudante de medicina Enya Egbe, de 26 anos, saiu da aula de anatomia chorando depois de ficar perturbado pelo cadáver que teve de analisar. Não foi a reação de um jovem inexperiente. Ele se lembra vividamente daquela tarde, sete anos atrás, na Universidade de Calabar, na Nigéria, quando estava com outros alunos em torno de três mesas com um corpo em cada uma delas.

Minutos depois de se aproximar, ele gritou e correu. O cadáver que ele estava prestes a dissecar era de Divine, seu amigo. "Costumávamos ir a clubes juntos", ele me contou. "Tinha dois buracos de bala no lado direito do peito dele."

Oyifo Ana foi um dos muitos alunos que correram atrás de Egbe e o encontraram chorando do lado de fora. "A maioria dos cadáveres que usamos na escola tinham marcas de balas. Eu me senti muito mal quando percebi que algumas daquelas pessoas poderiam não ser criminosos de verdade", disse Ana.

Ela lembrou que, numa manhã, viu uma van da polícia carregada com corpos ensanguentados chegando à escola de Medicina, que tinha um necrotério anexo.

Egbe enviou uma mensagem para a família de Divine que, ao que parece, tinha ido a diferentes delegacias depois que ele e três amigos foram presos por agentes de segurança no caminho de volta de uma noitada. A família finalmente conseguiu recuperar o corpo dele.

Em depoimento por escrito apresentado ao painel judicial no Estado de Enugu, o comerciante Cheta Nnamani, de 36 anos, disse que ajudou agentes de segurança a se livrarem dos corpos de pessoas que eles torturaram ou executaram.

Ele disse que, certa noite, ele foi convidado a carregar três cadáveres em uma van — tarefa conhecida na linguagem da cadeia como "serviço de ambulância". A polícia, então, o algemou dentro do veículo e dirigiu até o Hospital Universitário da Universidade da Nigéria (UNTH), onde Nnamani descarregou os corpos. Eles foram levados por um atendente do necrotério.

Nnamani me disse que mais tarde foi ameaçado a ter o mesmo destino.

Na cidade de Owerri, no sudeste do país, o necrotério do hospital particular Aladinma diz que parou de aceitar corpos de supostos criminosos, porque a polícia raramente fornecia identificação ou notificava parentes do falecido.

Isso costumava deixar o necrotério cheio, com os custos de manutenção dos corpos não procurados até que, a cada alguns anos, o governo concedia uma permissão para enterros em massa.

"Às vezes, a polícia tenta nos forçar a aceitar os corpos, mas insistimos para que os levassem a um hospital do governo", disse Ugonna Amamasi, administrador do necrotério. "Necrotérios privados não estão autorizados a doar corpos para escolas de medicina, mas os do governo podem", acrescento,u.

Com informações do site: CNN