quarta-feira, 27 de outubro de 2021

Uma cozinha com vista para o inferno: como é viver sob a ameaça de que o vulcão de La Palma engula sua casa


 
Foto: Reprodução
A ansiedade corre nas veias de Tuquelia Gómez, de 39 anos. As janelas de sua casa tremeram tantas vezes nos últimos dias que ela não tira esse ruído da cabeça. Os quadros da parede balançam como num filme de terror, e as explosões do vulcão, sobretudo as noturnas, tiram seu sono. Ela não descansa. Enquanto nos mostra um dos quartos —de onde é possível ver a lava descendo—, sua angústia é patente. “Não estou bem. Assim não dá para viver. Não quero ir embora porque esta é minha casa, mas não a quero desse jeito.” Ela fala sem olhar diretamente nos olhos, pois seu olhar está fixo no vulcão. Tuquelia o observa atentamente enquanto rói as unhas. “Ele está destruindo nossas vidas. Chorei muitas vezes enquanto ele engolia casas que nem sequer sei de quem são”, diz ela na varanda, no alto das colinas de Tacande, no município de El Paso, onde residiam quase 20% dos 7.000 evacuados de La Palma (Espanha).

As casas e ruas dos arredores estão em silêncio. A zona de exclusão mais próxima está a menos de um quilômetro. Muitos moradores deixaram suas casas de forma preventiva porque já não se sentiam seguros. Tuquelia, seu marido Jorge Calero, de 40 anos, e sua filha, de quase quatro, resistem. A desolação do lugar é sentida no terraço. Uma extensa paisagem de montanhas pretas exala fumaça naquele que antes era um vale repleto de pinheiros. Jorge mostra uma foto de sua mulher no lugar agora ocupado por uma das bocas do vulcão. Foi em julho. Ele vestia roupa esportiva e posava com uma expressão divertida. Nesse lugar agora há uma montanha de lava que já alcança os 200 metros de altura. “Não viveremos para ver de novo estas terras férteis. O que nos resta é isso. Só peço que o vulcão não leve [minha casa]”, diz Tuquelia.

Está quase na hora de comer, mas tudo está escuro, o céu está coberto por nuvens pretas de cinzas e à medida que o dia avança os estrondos se intensificam. “Isso me deixa irritada, estava muito calmo já fazia alguns dias, é como um bicho que te engana e depois destrói tudo de novo”, diz Tuquelia. O que os sentidos percebem, o ruído, a falta de claridade e um cheiro parecido com o da borracha queimada, fazem o corpo sair correndo. A sensação de ameaça é constante.

Seguindo pela estrada de carro, Hartmut Boog, um alemão de 70 anos que mora na ilha seis meses por ano, há 23 anos, ouve rádio enquanto organiza ferramentas em uma garagem que transformou em oficina. A visão do vulcão, desde o interior e também do lado de fora, é impressionante, parece que com apenas alguns passos pode-se chegar muito perto. Ele está com tudo bagunçado, mas, como pessoa com visão de futuro, tem duas malas prontas ao lado da porta. “A qualquer momento nos avisam”, diz, enquanto segura um charuto, que volta a colocar na boca. Não tem medo de morar tão perto do vulcão, só ficou um pouco nervoso nos primeiros dias por causa dos contínuos terremotos.

Na parte de baixo da casa ficam a cozinha e o quarto numa espécie de semiporão. “Eu vejo o vulcão deitado na cama.” Ele tem metástase no rim e mostra uma mochila cheia de medicamentos. “A morfina me ajuda muito”, conta, misturando algumas palavras em espanhol e inglês. Passa muito tempo nesse quarto, onde também há uma cozinha e uma mesa. Toma café da manhã, almoça e janta com vista para a lava e as explosões contínuas. Mostra muitos vídeos que gravou à noite e que envia aos seus familiares em Hannover. “Não estou com pressa de ir embora, mas não quero ver a lava entrando pela janela.”

Começou a chover cinzas. Não é um pozinho, são pequenas pedras que ficam incrustadas no couro cabeludo e grudam na pele. É impossível andar sem óculos de proteção de plástico. A poucos metros de um posto policial que bloqueia a passagem, David Barrios e Nieves Castro, sua mulher, retiram com pás as cinzas de seu telhado.

É uma construção moderna, com fachada branca e partes em viga de madeira. Há algumas semanas conseguiram que alguns amigos emprestassem uma casa em Garafía, no norte da ilha. “A qualidade do ar não parece adequada para nossas duas filhas pequenas, nós as transferimos para outra escola e nos mudamos, desculpem a bagunça”, diz David. A sala está meio desmontada, com um colchão apoiado no sofá. As meninas, que dormiam no térreo, estavam com medo, não queriam ficar sozinhas e tiveram que ser instaladas na sala, ao lado do quarto do casal. A menina mais nova começou a ter pesadelos.

“Morar aqui é impossível, minha mulher começou com sintomas de estresse, a casa toda estava se movendo, a gente está bem pertinho dele”, diz, olhando para o vulcão. Ele começa a contar e quando chega a sete se escuta uma forte explosão. “É assim que se mede a distância da onda expansiva.” Nieves, que é astrofísica, conhece a ciência por trás do fenômeno. Talvez seja por isso que decidiram partir. É imprevisível e isso não permitia que vivessem com calma. A cada dois dias voltam para a casa para retirar cinzas. Se as cinzas chegam a mais de seis centímetros de altura existe o perigo de os tetos desabarem. “Temos uma vida meio nômade ultimamente”, diz David, enxugando gotas de suor da testa. Trabalham rápido, querem ir embora o mais rápido possível. Não deixam uma das filhas sair para o quintal. A situação é tensa, parece que se aproxima um tornado.

As noites não são mais agradáveis para Juan Rodríguez, 67 anos. Ele sai da cama em média três vezes “para ver como vai”. Chegaram a seu celular mensagens contraditórias, de que estão prestes a ser removidos da área, que a lava da nova boca que surgiu esta semana se dirige para a sua rua... Sua casa era uma antiga escola que seu avô abandonou em 1905, quando foi para Cuba. Nos anos 80, Juan a reformou e encontrou um quadro negro com palavras escritas em giz. “Tem muito valor sentimental para nós, não queremos perde-la”, diz. A lava levou embora outra casa que tinham em Tazacorte e um terreno com plantações de bananas.

Carmen, sua esposa, todas as manhãs ao abrir a porta sente o cheiro de enxofre. “Não é cheiro de ovo podre, como dizem, é outra coisa mais química.” Tiveram que se acostumar a conviver com tremores e estrondos permanentes. “O que vamos fazer? Não temos para onde ir, espero que os nervos não nos matem.”

Com informações do site: EL PAÍS