domingo, 14 de novembro de 2021

Facção PCC usa coquetel com cocaína e viagra para matar inimigos nas prisões


 
Foto: Reprodução

O preso Juliano da Silva Soares, 36, pode ter sido vítima do “coquetel da morte” na Penitenciária 2 de Presidente Venceslau (SP). Ele passou mal na cela 308, na manhã do último dia 26, foi atendido na enfermaria da unidade prisional, submetido a procedimento de urgência e transferido para a Santa Casa da cidade. 

O coquetel da morte, mais conhecido no sistema prisional paulista como “gatorade”, é uma mistura de cocaína, viagra e água e, quando ingerido, causa overdose. A fórmula foi criada pelo PCC (Primeiro Comando da Capital) em meados dos anos 2000 para matar os inimigos. 

Soares morreu no dia seguinte. No xadrez ocupado por ele e outros quatro presos foram encontrados no ralo do banheiro 5,14 g de cocaína, 8,11 g de maconha, 14 comprimidos de cor azul, 20 de cor branca e quatro de cor verde, todos aparentando ser estimulantes .

Os presidiários Alexsandro Aparecido Bonifácio Santana, Carlos Ronaldo Correa, Deives Aparecido Manoel, Sidnei Oliveira da Cruz e Wanderlei Macambira de Brito foram isolados preventivamente em regime de cela disciplinar pelo prazo de dez dias.

Procurada pela reportagem, a SAP (Secretaria Estadual da Administração Penitenciária) informou por meio de nota que a direção da Penitenciária 2 de Presidente Venceslau abriu procedimento de apuração preliminar para checar os fatos.

Mistura fatal 

Condenado a 62 anos e quatro meses por assaltos e latrocínio (roubo seguido de morte), Soares cumpria pena na Penitenciária 2 de Presidente Venceslau desde 10 de novembro de 2009. Ele já havia passado por vários presídios e cometido ao menos dez faltas disciplinares graves no sistema prisional.

Em meados de 2003, o PCC adotou uma nova tática para matar seus inimigos. Trocou as facas afiadas feitas com ferros na prisão e o “kit forca” (banquinho e lençol para usar em enforcamentos) pelo “gatorade”.

A mistura fatal causa overdose. Em muitos casos, a vítima morre em menos de meia hora. O PCC desenvolveu essa técnica com um objetivo: evitar a responsabilização criminal dos faccionados envolvidos nos assassinatos dos rivais. Os exames apontam como “indeterminada” a causa da morte. 

O plano foi descoberto em 2005, na Penitenciária de Iaras (SP). Um diretor de disciplina apurou, a princípio, que os presos José Feliciano de Lima, Antonio dos Santos e Luciano Alves de Souza haviam sido encontrados mortos e a suposta causa seria overdose. 

A farsa veio à tona após a morte de Roberto Cipriano, 33, em 17 de novembro de 2005. Na garganta dele peritos do Instituto de Criminalística encontraram uma tampa verde semelhante a de um refrigerante. Daí surgiu o nome gatorade. Inimigos da cela o seguraram e o fizeram tomar à força o coquetel.

O preso teve o dente incisivo superior quebrado e ferimentos na língua e nos lábios. O exame necroscópico assinado por um legista do IML de Avaré apontou “causa da morte indeterminada”. O exame toxicológico acusou 0,3 g de álcool etílico (três decigramas por litro) no sangue de Cipriano.

De abril a novembro de 2005 outros cinco presos também morreram da mesma maneira na Penitenciária de Iaras: Sérgio Luiz Fidélis, 32, Carlos Luciano, 36, João Alves de Lima, 37, Anderson Dantas Pungirum, 31, e Rodrigo dos Santos Cruz, 27 anos. 

Fidélis era ligado a José Márcio Felício, o Geleião, e César Augusto Roriz Silva, o Cesinha, fundadores do PCC e expulsos da facção na sangrenta guerra de 2002. O exame toxicológico apontou positivo para cocaína no corpo dele. 

Toxicologistas do Hospital das Clínicas de São Paulo e da Faculdade de Medicina e Centro de Controle de Intoxicações da Unicamp disseram à época que o viagra dilata os vasos sanguíneos e se misturado à cocaína pode provocar falência cardíaca.

Os especialistas explicaram ainda que se a pessoa ingerir a droga e não tiver atendimento rápido corre o risco de morrer em consequência de overdose. Por falta de provas, o Ministério Público Estadual arquivou os casos das mortes suspeitas ocorridas em Iaras, no ano de 2005.

Sem conclusão, diz SAP 

Segundo a SAP, não é possível concluir a causa da morte de Soares porque o laudo de exame necroscópico ainda não foi emitido pela Polícia Científica.

A nota diz também que a política da SAP é de não tolerância à entrada de ilícitos, inclusive entorpecentes em suas unidades prisionais, equipadas com aparelhos de scanner corporal, raios-x e detectores de metais, atrelados à vigilância constante dos agentes de segurança treinados, além de revistas periódicas nos presídios.

Segundo a SAP, de janeiro de 2021 até hoje foram realizadas 24 interceptações e apreensões na Penitenciária 2 de Presidente Venceslau, todas com visitantes dos sentenciados. 

Com informações do site:  portalcm7