quinta-feira, 25 de novembro de 2021

Mulher morre por picada de cobra, mas o verdadeiro assassino é seu marido; Caso chama atenção


 
Foto: Reprodução
A mãe de Uthra encontrou a filha deitada, imóvel na cama de casa, com seu braço esquerdo manchado de sangue. A família a levou às pressas para o hospital local na cidade de Kollam, no estado de Kerala, sul da Índia, mas a jovem de 25 anos já estava morta.
 
De acordo com documentos judiciais, uma autópsia em 7 de maio de 2020 confirmou que, horas antes, ela havia sido picada por uma naja indiana altamente venenosa.

Na Índia, onde picadas de cobra são comuns, esse poderia ter sido o fim da história, mas a família ficou desconfiada e registrou queixa na polícia.

Após um julgamento que ganhou as manchetes nacionais, o assassino de Uthra foi considerado culpado e condenado à prisão perpétua por um crime que o juiz chamou de “diabólico e medonho”.
 
A conclusão foi de que a morte de Uthra foi causada pela cobra — mas o verdadeiro assassino era seu marido.

E essa não foi a primeira vez que ele usou uma cobra como arma.

A história de amor falida
Suraj Kumar e Uthra, que usava apenas o primeiro nome, se conheceram por meio de um serviço de corretor matrimonial e se casaram em março de 2018.

“Queríamos encontrar alguém que a fizesse feliz”, disse o irmão de Uthra, Vishu, que também usa apenas um nome. “Ela era um pouco diferente, tinha dificuldades de aprendizagem. Queríamos um homem que pudesse cuidar dela”.

Kumar, um bancário de 27 anos, não tinha um histórico financeiro estável. Seu pai era motorista de auto-riquixá (veículo de três rodas popular no país) e sua mãe, dona de casa.

De acordo com o julgamento, Kumar se casou com Uthra “com o objetivo de obter ganhos financeiros”.

Quando se casou, Kumar aceitou um dote de 720 gramas de ouro, um sedã Suzuki e 500 mil rúpias (cerca de R$ 37 mil) em dinheiro.
 
Uthra era uma pessoa que nunca via mal em ninguém

Vishu, irmão de Uthra
Os primeiros meses da vida de casados pareceram “monótonos”, e em um ano o casal teve um filho, segundo os documentos judiciais. No entanto, não demorou muito para que os pais de Kumar quisessem mais.

De acordo com o julgamento, os pais de Kumar exigiram que os pais de Uthra pagassem por eletrodomésticos, um carro, móveis, reformas e a taxa de inscrição de um curso de MBA para a irmã de Kumar.

“Uthra era uma pessoa que nunca via mal em ninguém”, disse Vishu. “Sua dificuldade de aprendizagem fazia com que ela não tivesse como perceber que estava sendo usada”.

O pai de Uthra disse ao tribunal que atendeu a todas as exigências de Kumar e que também pagava a ele 8 mil rúpias (aproximadamente R$ 600) por mês para cuidar da filha.

Mas, segundo o julgamento, Kumar estava “insatisfeito” com a dificuldade de aprendizagem de Uthra.

Foi aí que começou a tramar sua morte.

A tentativa de homicídio
No fim de 2019, Kumar parecia ter desenvolvido uma obsessão por cobras. Ele passava horas na internet assistindo a vídeos no YouTube, inclusive episódios de “Snake Master”, programa com o renomado especialista em cobras Vava Suresh.

O canal de Suresh no YouTube, que tem mais de 270 mil inscritos, mostra o domador interagindo calmamente com cobras, incluindo a altamente venenosa víbora de Russell, uma das serpentes mais agressivas da Ásia.

Os promotores do caso afirmaram que, no dia 26 de fevereiro, Kumar comprou uma víbora de Russell do apanhador de cobras Chavarukavu Suresh (que não possui nenhuma relação com Vava Suresh) por 10 mil rúpias (cerca de R$ 756). No dia seguinte, ele deixou a cobra na escada de sua casa e pediu a Uthra que pegasse seu telefone celular no quarto no primeiro andar, esperando que a cobra a picasse e a matasse.

“Mas sua tentativa não deu certo, porque Uthra viu a cobra e pediu ajuda”, de acordo com os documentos judiciais.

Kumar capturou a cobra, guardou em um saco plástico e, na noite de 2 de março, tentou novamente.

Ele misturou sedativos em uma porção de pudim indiano, o que fez Uthra “cair rapidamente no sono”.

Enquanto ela dormia, Kumar forçou a víbora a mordê-la e depois jogou a serpente para fora da casa para destruir provas.

Uthra acordou gritando com “uma dor terrível” e, após certa demora, foi levada ao hospital por Kumar, que alegou que a esposa havia sido picada do lado de fora, enquanto lavava roupas à noite.

Uthra contradisse essa versão dos acontecimentos, dizendo que nunca lavava roupas depois de escurecer.

No dia seguinte, enquanto a esposa estava no hospital, Kumar estava novamente pesquisando cobras no celular – mas desta vez ele digitou “naja”.

O assassinato
Uthra passou 52 dias no Hospital Pushpagiri na cidade de Thiruvalla, em Kerala, se recuperando da picada da víbora. Quando finalmente teve alta para poder ficar com seus pais, em 22 de abril do ano passado, ela não conseguia andar.

Ela estava deitada numa cama, com a perna enfaixada após precisar de enxertos de pele, quando Kumar decidiu atacar.

No dia 6 de maio, apenas 15 dias após a esposa deixar o hospital, ele foi para a casa dos sogros com outra cobra escondida, que comprou do mesmo apanhador de cobras Chavarukavu Suresh. Desta vez era uma naja.

De acordo com o julgamento, antes de ir para a cama, Kumar ofereceu a Uthra um copo de suco misturado com sedativos. Enquanto ela dormia, Kumar jogou a serpente nela, mas o réptil não mordeu. Ele então pegou a cobra pela cabeça e forçou suas presas contra o braço esquerdo de Uthra – duas vezes.

Apesar de Kumar ter tentado fazer com que tudo parecesse um acidente, uma série de pistas sugeriam que as picadas não eram naturais: a largura das marcas das presas, a posição das mordidas, e a impossibilidade de a cobra ter entrado na sala sozinha.

Najas normalmente não mordem, a menos que sejam muito provocadas. E, depois das 20h, elas geralmente estão adormecidas

Hari Shankar, Polícia de Kerala
As duas marcas de mordidas no braço de Uthra tinham uma largura de 2,3 e 2,8 cm, respectivamente, algo muito maior do que a largura típica das presas de uma cobra, entre 0,4 a 1,6 cm, disseram os especialistas ao tribunal.

Isso indica que a mandíbula superior da cobra tinha sido empurrada, como quando se busca extrair o veneno de suas presas.

A hora do dia também levantou suspeitas.

“Najas normalmente não mordem, a menos que sejam muito provocadas. E, depois das 20h, elas geralmente estão adormecidas”, disse Hari Shankar, inspetor-geral adjunto da Polícia de Kerala, que trabalhou como principal investigador do caso.

No tribunal, os investigadores apresentaram seu argumento montando uma simulação para demonstrar se uma cobra atacaria uma pessoa durante o sono.

No vídeo feito à noite, o mesmo tipo de cobra foi jogado na cama com um manequim. A gravação mostra a cobra rastejando várias vezes para o chão e apenas mordendo um pedaço de frango amarrado a um dos membros do manequim quando repetidamente provocada.

Os especialistas também levantaram dúvidas sobre como a cobra foi parar no quarto de Uthra.

O tribunal recebeu a informação de que as najas só conseguem se erguer verticalmente até um terço de seu comprimento, o que significa que a cobra de 152 cm que picou Uthra só poderia ter se levantado a uma altura de cerca de 50 cm – o que não é alto o suficiente para entrar pela janela. Outras três passagens de ar no quarto também estavam fechadas.

Por fim, Uthra dormiu durante o que foi, possivelmente, uma das experiências mais dolorosas de sua vida.

Vava Suresh, o domador de cobras que Kumar assistiu online, foi convocado a depor. Ele disse em depoimento que durante sua carreira de 30 anos ele foi mordido 16 vezes por uma víbora de Russell e 340 vezes por uma naja, o que causou dores “excruciantes” e “severas” – embora apenas três mordidas de víbora e 10 mordidas de naja tenham sido “críticas”, afirmou.

O domador de cobras disse que teve de amputar seu dedo médio esquerdo após uma picada de naja e, depois de outra mordida, não consegue mais fazer a rotação completa do pulso direito. Ele afirmou ainda que uma cobra que morde para se proteger não ataca duas vezes, pois os animais poupam seu veneno. E ele tinha certeza de que Uthra teria acordado ao ser picada – se não tivesse sido sedada.

Segundo documentos judiciais, Kumar ficou acordado a noite toda após o ataque, período no qual se livrou de provas, lavando o copo de vidro e destruindo o galho que usou para segurar a cobra.

Morte por picada de cobra
A morte de Uthra não é a primeira na Índia envolvendo uma acusação de assassinato por cobra.

No dia 6 de outubro, a Suprema Corte da Índia negou fiança a Krishna Kumar, uma das três pessoas acusadas de assassinato pela morte de uma mulher no estado do Rajastão, por terem deixado uma cobra venenosa em uma sacola perto da cama dela, de acordo com a agência de notícias local NDTV.

Comprar cobras venenosas de encantadores de serpentes para matar outras pessoas por picada de cobra é “uma nova tendência” que está “se tornando comum no Rajastão”, disse a juíza Surya Kant durante a audiência de fiança, segundo a NDTV.

Mortes por picada de cobra não são raras na Índia, com 1,2 milhão de mortes tendo ocorrido entre 2000 e 2019, de acordo com a Organização Mundial de Saúde.

Mas Shankar, o investigador, disse que 99,9% das picadas de cobra na Índia são caracterizadas como “acidentais”.

“Não sabemos quantos desses casos podem ter sido assassinatos, mas que foram considerados acidentes”, comentou.

“(Nesses casos), é muito importante provar que a picada foi com intenção de homicídio. Provamos que a pessoa foi drogada, recuperamos o recipiente do acusado, demonstramos que ele comprou a cobra, seus padrões de busca no celular, todas essas coisas”.

Com informações do site: CNN