quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

Veja o que se sabe sobre a tragédia em Capitólio (MG)


 
Foto: Reprodução

A queda de rochas como a que causou a morte de dez pessoas no lago de Furnas, em Capitólio (MG), pode ocorrer naturalmente. Mas a Polícia Civil ainda apura se alguma ação humana contribuiu para causar ou agravar a tragédia.

Pilotos de lancha e moradores afirmam que nunca viram uma queda como a que ocorreu no sábado (8), quando uma rocha de cerca de 40 metros se soltou do cânion e caiu sobre quatro lanchas.

Concluída a identificação das vítimas da tragédia e a liberação dos corpos para as famílias, o foco da polícia agora é analisar, com apoio técnico de um geólogo, as causas do acidente.

Por que a rocha se desprendeu do cânion?
As rochas da parede do cânion em Capitólio (MG) possuem naturalmente diversas fraturas que favorecem o deslizamentos de blocos. Essa condição, natural da própria formação rochosa, aliada à erosão causada pelo impacto da água e do vento no paredão, podem ter levado ao acidente registrado neste sábado (8).

Segundo o geólogo do Instituto de Geociências da USP Cláudio Riccomini, as rochas que formam os cânions de Capitólio são essencialmente sedimentares, depositadas ao longo de milhares de anos em uma posição quase horizontal (o que explica o estrato rochoso em várias camadas que pode ser visto em fotos da região). Essas rochas posteriormente sofreram pressões e foram fraturadas.

“Esse processo levou às fraturas que também podem ser observadas ao olhar por exemplo uma imagem aérea desses cânions”, explica.

As fraturas presentes são, inclusive, responsáveis pela formação das escarpas verticais tão populares entre os turistas que visitam o local.

“Aquele cânion só existe porque em outros momentos no passado houve também o desabamento da rocha, e isso é evidenciado pelas fraturas quase verticais [em posição próximo a um ângulo de 90˚] vistas nas imagens do acidente”, afirma o pesquisador.

Alguma ação humana pode ter interferido no desprendimento?
A Polícia Civil de Minas Gerais vai realizar uma perícia técnica no local para identificar as razões do acidente e se houve interferência humana. O delegado Marcos Pimenta, da Delegacia Regional em Passos, responsável pela apuração do caso, afirmou ser prematuro atribuir alguma responsabilidade pelo acidente.

Um dos pontos a ser verificado é o eventual vínculo do desprendimento com uma obra num mirante próximo ao local do acidente. A hipótese é levantada por pilotos de lancha da região e descrita em áudio que viralizou pela cidade, de autoria de um engenheiro ambiental.

Em nota, o parque Mirante dos Cânyons afirmou que a infraestrutura de apoio à visitação fica a 140 metros de distância da rocha que se desprendeu. O local, de acordo com a empresa, fica “em degrau superior ao nível do topo da rocha deslocada e em outro bloco rochoso”.

“Tais instalações —finalizadas entre o ano de 2020 e meados de 2021— foram desenvolvidas e acompanhadas por empresas e profissionais especializados de grande reputação, seguindo rigorosamente métodos construtivos de baixo impacto”, afirma o parque, em nota.

O delegado também mencionou a possibilidade de caixas de som usadas nas lanchas durante a visita nos cânions colaborarem para a desestabilização do terreno. A prática é proibida por decreto municipal.

As hipóteses serão analisadas por um geólogo que dará apoio à investigação.

Algum órgão monitora a estabilidade das rochas do cânion?
O prefeito Cristiano Geral da Silva (Progressista) ​afirma que não há um monitoramento sobre a estabilidade das rochas do cânion.

“Nunca antes se viu um desprendimento de pedra da forma como ocorreu [no sábado dia 8]. O que nós tínhamos era uma atuação da Defesa Civil municipal na prevenção de trombas d’água e a fiscalização junto à Marinha para impedir que as lanchas atracassem na lagoa e os banhistas nadassem”, afirmou.

A responsabilidade por monitorar áreas com risco de desastres é do município, de acordo com a legislação nacional vigente.

No caso da impossibilidade de fazer o monitoramento das zonas de risco ou de áreas sujeitas a riscos, os municípios podem solicitar ajuda ao governo estadual que, por sua vez, pode encomendar à União estudos geológicos de monitoramento de áreas de risco, como aqueles produzidos pelo Serviço Geológico do Brasil (CPRM).

A região de Capitólio, porém, não havia registrado até o momento nenhuma solicitação para mapeamento de zonas de risco ou de áreas suscetíveis junto ao CPRM, tampouco emitiu relatórios alertando para os riscos dessa área.

O governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), disse que serão feitas avaliações geológicas para viabilizar um turismo seguro.

Os barcos poderiam estar no local do acidente?
Sim. Cada lancha pode permanecer naquele local por até 30 minutos, de acordo com decreto de Capitólio. Aquele ponto pode receber, no máximo, 40 embarcações simultaneamente. Em razão do mau tempo no dia do acidente, o número era menor do que o exigido.

O decreto proíbe apenas que lanchas atraquem no local, bem como veda que banhistas entrem na água do lago.

Imagens registradas pelos turistas, porém, mostram que, um minuto antes do acidente, banhistas alertavam as lanchas mais próximas da parede do cânion sobre a queda de pedras, indicando a instabilidade da parede rochosa. Um fiscal da prefeitura, que usava jet ski, também aparece nas imagens orientando que todos saíssem do local.

Uma das hipóteses é de que, em razão do barulho da água, cujo volume era acima do normal em razão das chuvas, pode ter atrapalhado a comunicação entre as embarcações.

Todas as lanchas que se acidentaram tinham autorização para transitar com turistas no lago, de acordo com a Polícia Civil.

Quem são as vítimas do acidente?
A pedra atingiu quatro lanchas, matando dez pessoas e ferindo ao menos 32.

Os mortos foram o piloto da lancha, Rodrigo Alves dos Anjos, 40, e um grupo de familiares e amigos formado por nove pessoas: Júlio Borges Antunes, 68, natural de Alpinópolis (MG), Camila Silva Machado, 18, da cidade de Paulínia (SP), Mykon Douglas de Osti, 24, natural de Campinas (SP), Sebastião Teixeira da Silva, 64, natural de Anhumas (MG), Marlene Augusta Teixeira da Silva, 57, de Itaú de Minas (MG), Geovany Gabriel Oliveira da Silva, 14, natural de Alfenas (MG), Geovany Teixeira da Silva, 38, nascido em Itaú de Minas (MG), Tiago Teixeira da Silva Nascimento, 35, da cidade de Passos (MG) e Carmen Pinheiro da Silva, 43, natural da cidade de Cajamar (SP).

Sebastião e Marlene eram casados. Os dois eram pais de Geovany Teixeira e avós de Geovany Gabriel. Eles também eram tios de outra das vítimas, Tiago Teixeira. Carmen era casada com Geovany Teixeira e mãe de Camila da Silva.

As vítimas estavam hospedadas em uma pousada na cidade de São José da Barra (MG). Segundo parentes, o grupo havia deixado a cidade de Serrania (MG) para acampar num sítio e, durante viagem, resolveu fazer o passeio no lago.


Com informações do site:  jornaldebrasilia